terça-feira, 11 de setembro de 2007

Texto interessante - Obrigada Mariana Pimenta

À selecção de râguebi

09.09.2007, José Diogo Quintela

É costume dizer que o râguebi é um desporto de grande bravura, por oposição ao futebol - para usar o desporto mais popular. Não acho que isso seja verdade. Comparados com os jogadores de futebol, os de râguebi são uns medricas. Para mim, pelo menos. É que das coisas que eu tenho mais medo é de médicos e do expoente máximo da sua actividade que é o escarafunchar pessoas com objectos afiados. E é patente, para quem vir os dois desportos, que, enquanto os jogadores de râguebi evitam ao máximo serem assistidos pelo médico, escondendo feridas e disfarçando fracturas, o corajoso jogador de futebol não tem cá medo de agulhas e do cheiro a éter. Quando cai, não se levanta logo, qual poltrão a querer fugir do doutor. Nã, deixa-se estar, audaz, e enfrenta o spray analgésico e até, ó audácia!, a própria maca.





O râguebi tem particularidades engraçadas. No pontapé de saída, a equipa que tem a bola chuta-a para o adversário, para que este ataque. No fundo, como quem diz: "Peguem. Agora vamos lá ver o que é que conseguem fazer." Do mesmo modo, depois de serem marcados pontos, o jogo reinicia-se com a devolução da bola à equipa que os marcou.Quem acaba de sofrer pontos parece dizer: "Pfff! Só isto? Tomem lá a bola outra vez e tentem repetir!"O que é que isto diz sobre o râguebi? Que é um desporto de gabarolas, cheios de bazófia. Uma espécie de rufias de Alcântara de chuteiras.




Mas, mais do que isso, que é um desporto de sacrifício. Em que uma equipa sabe que, para ganhar, tem de dar a bola ao adversário e ir lá recuperá-la.É esse espírito de sacrifício que os portugueses que hoje iniciam o Campeonato do Mundo têm demonstrado e - é mais certo que sem dúvida - vão continuar a demonstrar.Tem sido dito que esta participação é uma façanha que fica para a História. É pouco.



Falando de outras disciplinas escolares, é preciso dizer que, mais do que uma façanha histórica, é um feito matemático. Porque é desafiar a matemática treinar tanto ao mesmo tempo que se trabalha ou estuda, nas 24 horas do dia. É desafiar a matemática, viajar para tão longe, tantas vezes, ao longo de tanto tempo, com tão pouco dinheiro. E é desafiar a matemática superar, como nós, homens maiores e mais pesados, consecutiva e inequivocamente.





Por isso é que, daqui a uma semana, quando os nossos jogadores estiverem a ver os da Nova Zelândia a fazer a Haka, não vão estar a pensar no tamanho deles - aliás, não são assim tão grandes, usam é t-shirts justas. Nem na experiência que têm por serem profissionais. Ou no tempo a mais que tiveram para se preparar. Vão estar a pensar que a melhor equipa do mundo está ali, à frente deles... a dançar. Vão tentar suster o riso. E vão estar em pulgas pelo pontapé de saída. Para lhes poderem mandar a bola e dizer: "Tentem passar por nós!"



Força, rapazes! Sei que já devem estar fartos de ouvir franceses, mas quero só citar um grupelho de irredutíveis franciús que também lutou contra exércitos maiores. Diziam que "só devemos ter medo que o céu nos caia em cima da cabeça". Disso e de um médico, claro.



Boa sorte.